Questões de Concursos MPE RO

Resolva Questões de Concursos MPE RO Grátis. Exercícios com Perguntas e Respostas. Provas Online com Gabarito.

  • 3 - Q50434.   Direito Administrativo - Nível Médio - Técnico Administrativo - MPE RO - FUNCAB - 2012
  • A responsabilidade civil objetiva da Administração Pública compreende os danos causados aos particulares, até mesmo:
  • 8 - Q50538.   Direito Constitucional - Nível Médio - Técnico em Contabilidade - MPE RO - FUNCAB - 2012
  • Assinale a alternativa correta.
  • 9 - Q50424.   Português - Nível Médio - Técnico Administrativo - MPE RO - FUNCAB - 2012
  • Um peixe 

                Virou a capanga de cabeça para baixo, e os peixes espalharam-se pela pia. Ele ficou olhando, e foi então que notou que a traíra ainda estava viva. Era o maior peixe de todos ali, mas não chegava a ser grande: pouco mais de um palmo. Ela estava mexendo, suas guelras mexiam-se devagar, quando todos os outros peixes já estavam mortos. Como que ela podia durar tanto tempo assim fora d"água?...

            Teve então uma ideia: abrir a torneira, para ver o que acontecia. Tirou para fora os outros peixes: lambaris, chorões, piaus; dentro do tanque deixou só a traíra. E então abriu a torneira: a água espalhou-se e, quando cobriu a traíra, ela deu uma rabanada e disparou, ele levou um susto – ela estava muito mais viva do que ele pensara, muito mais viva. Ele riu, ficou alegre e divertido, olhando a traíra, que agora tinha parado num canto, o rabo oscilando de leve, a água continuando a jorrar da torneira. Quando o tanque se encheu, ele fechou-a.
    – E agora? – disse para o peixe. – Quê que eu faço com você?...
    Enfiou o dedo na água: a traíra deu uma corrida, assustada, e ele tirou o dedo depressa.
            – Você tá com fome?... E as minhocas que você me roubou no rio? Eu sei que era você; devagarzinho, sem a gente sentir... Agora está aí, né?... Tá vendo o resultado?...
        O peixe, quieto num canto, parecia escutar.
        Podia dar alguma coisa para ele comer. Talvez pão. Foi olhar na lata: havia acabado. Que mais? Se a mãe estivesse em casa, ela teria dado uma ideia – a mãe era boa para dar ideias. Mas ele estava sozinho. Não conseguia lembrar de outra coisa. O jeito era ir comprar um pão na padaria. Mas sujo assim de barro, a roupa molhada, imunda? – Dane-se – disse, e foi.
            Era domingo à noite, o quarteirão movimentado, rapazes no footing , bares cheios. Enquanto ele andava, foi pensando no que acontecera. No começo fora só curiosidade; mas depois foi bacana, ficou alegre quando viu a traíra bem viva de novo, correndo pela água, esperta. Mas o que faria com ela agora? Matá-la, não ia; não, não faria isso. Se ela já estivesse morta, seria diferente; mas ela estava viva, e ele não queria matá-la. Mas o que faria com ela? Poderia criá-la; por que não? Havia o tanquinho do quintal, tanquinho que a mãe uma vez mandara fazer para criar patos. Estava entupido de terra, mas ele poderia desentupi-lo, arranjar tudo; ficaria cem por cento. É, é isso o que faria. Deixaria a traíra numa lata d"água até o dia seguinte e, de manhã, logo que se levantasse, iria mexer com isso. 
            Enquanto era atendido na padaria, ficou olhando para o movimento, os ruídos, o vozerio do bar em frente. E então pensou na traíra, sua trairinha, deslizando silenciosamente no tanque da pia, na casa escura. Era até meio besta como ele estava alegre com aquilo. E logo um peixe feio como traíra, isso é que era o mais engraçado.
            Toda manhã – ia pensando, de volta para casa – ele desceria ao quintal, levando pedacinhos de pão para ela. Além disso, arrancaria minhocas, e de vez em quando pegaria alguns insetos. Uma coisa que podia fazer também era pescar depois outra traíra e trazer para fazer companhia a ela; um peixe sozinho num tanque era algo muito solitário. 

    A empregada já havia chegado e estava no portão, olhando o movimento. – Que peixada bonita você pegou...
    – Você viu?
    – Uma beleza... Tem até uma trairinha.
    – Ela foi difícil de pegar, quase que ela escapole; ela não estava bem fisgada.
    – Traíra é duro de morrer, hem?
    – Duro de morrer?... Ele parou.
            – Uai, essa que você pegou estava vivinha na hora que eu cheguei, e você ainda esqueceu o tanque cheio d"água... Quando eu cheguei, ela estava toda folgada, nadando. Você não está acreditando? Juro. Ela estava toda folgada, nadando. 
        – E aí?
        –Aí? Uai, aí eu escorri a água para ela morrer; mas você pensa que ela morreu? Morreu nada! Traíra é duro de morrer, nunca vi um peixe assim. Eu soquei a ponta da faca naquelas coisas que faz o peixe nadar, sabe? Pois acredita que ela ainda ficou mexendo? Aí eu peguei o cabo da faca e esmaguei a cabeça dele, e foi aí que ele morreu. Mas custou, ô peixinho duro de morrer! Quê que você está me olhando? 
    – Por nada.
    – Você não está acreditando? Juro; pode ir lá na cozinha ver: ela está lá do jeitinho que eu deixei. Ele foi caminhando para dentro.
    – Vou ficar aqui mais um pouco
    – disse a empregada.
    – depois vou arrumar os peixes, viu?
    – Sei.
        Acendeu a luz da sala. Deixou o pão em cima da mesa e sentou-se. Só então notou como estava cansado.
     

    (VILELA, Luiz. . O violino e outros contos 7ª ed. São Paulo: Ática, 2007. p. 36-38.) 
    VOCABULÁRIO:
    Capanga: bolsa pequena, de tecido, couro ou plástico, usada a tiracolo. 
    Footing :passeio a pé, com o objetivo de arrumar namorado(a).
    Guelra: estrutura do órgão respiratório da maioria dos animais aquáticos.
    Vozerio: som de muitas vozes juntas. 
  • A alternativa em que o termo destacado tem a função de adjunto adnominal e não a de predicativo do sujeito é: