Simulado Câmara de Cubatão SP - Português - Assistente em Administração Pública - 2010

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ENSAIO SOBRE A AMIZADE

Que qualidade primeira a gente deve esperar de alguém com quem pretende um relacionamento? Perguntou-me o jovem jornalista, e lhe respondi: aquelas que se esperaria do melhor amigo. O resto, é claro, seriam os ingredientes da paixão, que vão além da amizade. Mas a base estaria ali: na confiança, na alegria de estar junto, no respeito, na admiração. Na tranqüilidade. Em não poder imaginar a vida sem aquela pessoa. Em algo além de todos os nossos limites e desastres.
Talvez seja um bom critério. Não digo de escolha, pois amor é instinto e intuição, mais uma dessas opções mais profundas, arcaicas, que a gente faz até sem saber, para ser feliz ou para se destruir. Eu não quereria como parceiro de vida quem não pudesse querer como amigo. E amigos fazem parte de meus alicerces emocionais: são um dos ganhos que a passagem do tempo me concedeu. Falo daquela pessoa para quem posso telefonar, não importa onde ela esteja nem a hora do dia ou da madrugada, e dizer: "Estou mal, preciso de você". E ele ou ela estará comigo pegando um carro, um avião, correndo alguns quarteirões a pé, ou simplesmente ficando ao telefone o tempo necessário para que eu me recupere, me reencontre, me reaprume, não me mate, seja lá o que for.
Mais reservada do que expansiva num primeiro momento, mais para tímida, tive sempre muitos conhecidos e poucas, mas reais, amizades de verdade, dessas que formam, com a família, o chão sobre o qual a gente sabe que pode caminhar. Sem elas, eu provavelmente nem estaria aqui. Falo daquelas amizades para as quais eu sou apenas eu, uma pessoa com manias e brincadeiras, eventuais tristezas, erros e acertos, os anos de chumbo e uma generosa parte de ganhos nesta vida. Para eles não sou escritora, muito menos conhecida de público algum: sou gente.
A amizade é um meio-amor, sem algumas das vantagens dele, mas sem o ônus do ciúme - o que é, cá entre nós, uma bela vantagem. Ser amigo é rir junto, é dar o ombro para chorar, é poder criticar (com carinho, por favor), é poder apresentar namorado ou namorada, é poder aparecer de chinelo de dedo ou roupão, é poder até brigar e voltar um minuto depois, sem ter de dar explicação nenhuma. Amiga é aquela a quem se pode ligar quando a gente está com febre e não quer sair para pegar as crianças na chuva: a amiga vai, e pega junto com as dela ou até mesmo se nem tem criança naquele colégio.
Amigo é aquele a quem a gente recorre quando se angustia demais, e ele chega confortando, chamando de "minha gatona" mesmo que a gente esteja um trapo. Amigo, amiga, é um dom incrível, isso eu soube desde cedo, e não viveria sem eles. Conheci uma senhora que se vangloriava de não precisar de amigos: "Tenho meu marido e meus filhos, e isso me basta". O marido morreu, os fijhos seguiram sua vida, e ela ficou num deserto sem oásis, injuriada como se o destino tivesse lhe pregado uma peça. Mais de uma vez se queixou, e nunca tive coragem de lhe dizer, àquela altura, que a vida é uma construção, também a vida afetiva. E que amigos não nascem do nada como frutos do acaso: são cultivados com... amizade. Sem esforço, sem adubos especiais, sem método nem aflição: crescendo como crescem as árvores e as crianças quando não lhes faltam nem luz nem espaço nem afeto.
Quando em certo período o destino havia aparentemente tirado de baixo de mim todos os tapetes e perdi o prumo, o rumo, o sentido de tudo, foram amigos, amigas, e meus filhos, jovens adultos já revelados amigos, que seguraram as pontas. E eram pontas ásperas aquelas. Aguentei, persisti, e continuei amando a vida, as pessoas e a mim mesma (como meu amado amigo Erico Veríssimo, "eu me amo, mas não me admiro") o suficiente para não ficar amarga. Pois, além de acreditar no mistério de tudo o que nos acontece, eu tinha aqueles amigos. Com eles, sem grandes conversas nem palavras explícitas, aprendi solidariedade, simplicidade, honestidade, e carinho.
Nesta página, hoje, sem razão especial nem data marcada, estou homenageando aqueles, aquelas, que têm estado comigo seja como for, para o que der e vier, mesmo quando estou cansada, estou burra, estou irritada ou desatinada, pois às vezes eu sou tudo isso, ah, sim! E o bom mesmo é que na amizade, se verdadeira, a gente não precisa se sacrificar nem compreender nem perdoar nem fazer malabarismos sexuais nem inventar desculpas nem esconder rugas ou tristezas. A gente pode simplesmente ser: que alívio, neste mundo complicado e desanimador, deslumbrante e terrível, fantástico e cansativo. Pois o verdadeiro amigo é confiável e estimulante, engraçado e grave, às vezes irritante; pode se afastar, mas sabemos que retorna; ele nos aguenta e nos chama, nos dá impulso e abrigo, e nos faz ser melhores: como o verdadeiro amor.

Lya Luft, Revista Veja, edição 1962, 28 de junho de 2006
  • 1 - Questão 27000.   Português - Nível Médio - Assistente em Administração Pública - Câmara de Cubatão SP - IBAM - 2010
  • Da leitura do primeiro parágrafo podemos infe­rir que um relacionamento, segundo a autora.
  • 2 - Questão 27001.   Português - Nível Médio - Assistente em Administração Pública - Câmara de Cubatão SP - IBAM - 2010
  • Sobre o texto, foram feitas algumas afirma­ções.

    I. Relacionamentos amorosos nos levam, invariavelmente, mais à destruição do que à felicidade.
    II. Lya Luft deixa patente em seu texto que, para ela, um parceiro de vida não pode estar dissociado da figura de amigo.
    III. A autora afirma que, em situações de necessidade, podemos recorrer aos ami­gos, diferentemente do que ocorre com pessoas com quem temos envolvimento amoroso.
    IV. Lya Luft confessa sua timidez em dado momento do texto e atribui a ela o fato de ter mais conhecidos do que amigos, porém, enfatiza que estes representam um aspecto essencial de sua vida.

    Está correto o que se afirmou em:
  • 3 - Questão 27002.   Português - Nível Médio - Assistente em Administração Pública - Câmara de Cubatão SP - IBAM - 2010
  • No quarto parágrafo Lya Luft deixa patente que:
  • 4 - Questão 27003.   Português - Nível Médio - Assistente em Administração Pública - Câmara de Cubatão SP - IBAM - 2010
  • Abaixo, transcrevemos alguns trechos do texto.

    I. “O marido morreu, os filhos seguiram sua vida, e ela ficou num deserto sem oásis”.
    II. “Quando em certo período o destino havia aparentemente tirado de baixo de mim todos os tapetes e perdi o prumo, o rumo, o sentido de tudo...”.
    III. “Perguntou-me o jovem jornalista, e lhe respondi: aquelas que se esperaria do me­lhor amigo”.
    IV. “Falo daquela pessoa para quem posso telefonar, não importa onde ela esteja nem a hora do dia ou da madrugada...”.

    A autora lançou mão do recurso da linguagem figurada nos trechos representados pelas pro­posições:
  • 5 - Questão 27004.   Português - Nível Médio - Assistente em Administração Pública - Câmara de Cubatão SP - IBAM - 2010
  • No sexto parágrafo Lya Luft faz alusão ao escritor Érico Veríssimo. Sobre tal passagem, é correto afirmar que:

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