Simulado Prefeitura de Niterói RJ - Português - Guarda Civil Municipal - 2014

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MINHA CALÇADA

   
  Morreu na semana passada, atropelado pela multidão que vinha na direção oposta, o último cronista andarilho. Ele insistia em fazer como seus antepassados, João do Rio, Lima Barreto, Benjamim Costallat, Antônio Maria, Carlinhos Oliveira, e flanava em busca de assuntos. Descanse em paz, pobre coitado.
      O cronista andarilho estava na calçada par da Avenida Rio Branco, em frente à Galeria dos Empregados no Comércio, às 13h15m de quarta-feira, quando foi abalroado por um pelotão de transeuntes que marchava apressado no contrafluxo. Caiu, bateu com a cabeça num fradinho. Morreu constrangido por estar atrapalhando o tráfego de pedestres, categoria à qual sempre se orgulhou de pertencer.
      A perícia encontrou em seu bolso um caderno com a anotação “escrever sobre as mulheres executivas que caminham de salto alto sobre as pedras portuguesas do Centro, o que lhes aumenta ainda mais a sensualidade do rebolado”. O documento, entregue ao museu da Associação Brasileira de Imprensa, já está numa vitrine de relíquias cariocas.
      O cronista que ora se pranteia era um nostálgico das calçadas e tinha como livro de cabeceira “Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro”. Nele, Joaquim Manuel de Macedo descreve uma caminhada pela Rua do Ouvidor como um dos grandes prazeres da vida. No apartamento do cronista, de quem no momento se faz este funéreo, foi encontrada também a gravura de J. Carlos em que um grupo de almofadinhas observa, deslumbrado, a passagem de uma melindrosa de vestido curto e perna grossa pela Avenida Central dos anos 1920.
      As calçadas inspiravam o morto. Fez dezenas de crônicas sobre a poesia do flanar sem rumo, às vezes lambendo uma casquinha de sorvete. Numa delas chegou a falar da perda de tempo que era subir até o Corcovado para admirar o Rio. O cronista andarilho, agora de saudosa memória, dizia não haver melhor jeito e lugar para se entender a cidade do que bater perna descompromissadamente, mas em passos mais curtos do que essa palavra imensa, pelas calçadas.
      Ele ia assim como quem não quer nada, na terapia gratuita de atravessar de um lado para o outro e não estar focado em nada — enfim, na exata contramão do que recomenda o odioso estresse moderno que o atropelou próximo ao turbilhão da Galeria.
      O cronista andarilho gostava de ouvir os torcedores discutindo futebol na banca do botafoguense Tolito, na esquina com a Sete de Setembro. Também podia rir da pregação moralista do profeta Gentileza no Largo da Carioca, ou dar uma parada no Cineac Trianon, na Rio Branco 181, e avaliar as fotos das strippers que naquele momento estariam tirando a roupa lá dentro, na tela do cinema.
      A vida era o que lhe ia pelas calçadas do Rio, um espaço historicamente sem entraves para se analisar como caminhava a Humanidade. O cronista andarilho, desde já saudoso como o frapê de coco do Bar Simpatia, não percebeu o fim das calçadas — e, na distração habitual, foi vítima da confusão que se estabeleceu sobre elas, uma combinação criminosa das novas multidões apressadas com fradinho, anotador do jogo do bicho, bicicleta, burro sem rabo, mesa de botequim, gola de árvore acimentada, esgoto, banca de jornal, segurança de loja sentado no meio do caminho e o escambau a quatro.
      Calçadas não há mais. Eram passarelas onde os vizinhos se encontravam, perpetuavam os hábitos do bairro e tocavam a vida em frente com certa intimidade pública — no subúrbio chegava-se a colocar as cadeiras para curtir com mais conforto o mundo que passava. O cronista andarilho acreditava que na calçada pulsava a alma carioca. Com o caderno sempre à mão, anotava os modismos, os pequenos acontecimentos. No dia seguinte publicava o que achava ser a história afetiva da cidade, aquela em que as pessoas se reconhecem, pois são as obreiras.
      O homem gastava sola de sapato. Uma outra inspiração para o seu ofício era o livro “A arte de caminhar pelas ruas do Rio de Janeiro”, escrito pelo contista e pedestre Rubem Fonseca nos anos 1990. Ainda havia calçada suficiente para o protagonista descer andando das ladeiras do Morro da Conceição, se esgueirar pelos becos nos fundos da Rua Larga e, sem GPS, chegar à Rua Senador Dantas. Não há mais.
      O cronista peripatético costumava cruzar na vida real com Rubem Fonseca, os dois flanando pelas calçadas do Leblon. As meninas do Leblon não olhavam para eles, não tinha importância. O mestre seguia em aparente calma, enquanto a mente elucubrava cenas cruéis de sexo e violência para um próximo conto. Mas, como sabem todos os que têm passado por ali, as calçadas do Leblon também desapareceram embaixo de tapume do metrô e da multidão trazida pelo shopping center. O engarrafamento agora é de gente — e foi aí que se deu o passamento do último cronista andarilho, vítima da absoluta impossibilidade de se caminhar pelas agressivas calçadas da sua cidade.

                                                                                        (SANTOS, J. Ferreira dos. O Globo, 17/03/2014.)
  • 1 - Questão 53388.   Português - Nível Médio - Guarda Civil Municipal - Prefeitura de Niterói RJ - COSEAC - 2014
  • Sobre o cronista andarilho são feitas as afirmativas abaixo.

    I Andava sem rumo pela cidade em busca de assuntos para suas crônicas, assim como fizeram cronistas antepassados, João do Rio, Lima Barreto, etc. 
    II Orgulhava-se de pertencer à categoria dos pedestres, daí ter morrido constrangido por estar atrapalhando o tráfego dos transeuntes.
    III Era um nostálgico das calçadas e gostava de passear pela Rua do Ouvidor em companhia de Joaquim Manoel de Macedo. 
    IV As calçadas eram sua fonte de inspiração, e dizia não haver melhor jeito e lugar para entender a cidade do que caminhar sem pressa por elas. 
    V Fazia de suas caminhadas uma terapia gratuita consciente contra o odioso estresse moderno, em virtude do qual morreu. 
    VI Acreditava que na calçada pulsava a alma carioca, razão pela qual, caderno sempre à mão, anotava os modismos, os pequenos acontecimentos, para no dia seguinte publicar o que achava ser a história afetiva da cidade. 
    VII Andando pelas calçadas do Leblon, ao passar pelas meninas, ele seguia em aparente calma, elucubrando cenas cruéis de sexo e violência para um próximo conto.

    Das afirmativas acima, estão de acordo com o texto apenas:
  • 2 - Questão 53389.   Português - Nível Médio - Guarda Civil Municipal - Prefeitura de Niterói RJ - COSEAC - 2014
  • Ainda que expresso em termos figurativos, concretos, depreende-se do texto um componente temático que consiste em: 
  • 4 - Questão 53391.   Português - Nível Médio - Guarda Civil Municipal - Prefeitura de Niterói RJ - COSEAC - 2014
  • Quanto ao modo de organização, pode-se afirmar que o texto apresenta predominantemente características discursivas próprias de uma:
  • 5 - Questão 53392.   Português - Nível Médio - Guarda Civil Municipal - Prefeitura de Niterói RJ - COSEAC - 2014
  • “Morreu constrangido por estar atrapalhando o tráfego de pedestres...” (§ 2)
    Das modificações feitas na redação do trecho acima, aquela em que houve sensível alteração do sentido original é:
  • 6 - Questão 53393.   Português - Nível Médio - Guarda Civil Municipal - Prefeitura de Niterói RJ - COSEAC - 2014
  • Leia com atenção os fragmentos extraídos do parágrafo 11.

    I “...os dois FLANANDO pelas calçadas do Leblon.”
    II “...enquanto a mente ELUCUBRAVA cenas cruéis de sexo e violência para um próximo conto.”

    A opção em que estão expressos, respectivamente, os sinônimos dos verbos em destaque acima é:
  • 7 - Questão 53394.   Português - Nível Médio - Guarda Civil Municipal - Prefeitura de Niterói RJ - COSEAC - 2014
  • No oitavo parágrafo, são relacionados fatores que vêm dificultando o trânsito de pedestres pelas calçadas, tais como “fradinho, anotador do jogo do bicho, bicicleta, burro sem rabo”, etc., concluindo-se o parágrafo com a expressão de linguagem informal “e o escambau a quatro”. A expressão final significa:
  • 9 - Questão 53396.   Português - Nível Médio - Guarda Civil Municipal - Prefeitura de Niterói RJ - COSEAC - 2014
  • “escrever SOBRE as mulheres executivas que caminham de salto alto SOBRE as pedras portuguesas do Centro, o que lhes aumenta ainda mais a sensualidade do rebolado”. (§ 3)

    As preposições em destaque no trecho acima exprimem, respectivamente, os sentidos de:
  • 10 - Questão 53397.   Português - Nível Médio - Guarda Civil Municipal - Prefeitura de Niterói RJ - COSEAC - 2014
  • “O cronista andarilho, agora de saudosa memória, dizia não haver melhor jeito e lugar para se entender a cidade do que bater perna descompromissadamente, mas em passos mais curtos do que essa palavra imensa, pelas calçadas.” (§ 5)

    No período acima, constata-se a ocorrência de duas comparações, ambas com forte carga de expressividade, caracterizando o sentido conotativo. Na segunda ocorrência, a comparação foi empregada para a expressão semântica de uma:
  • 11 - Questão 53398.   Português - Nível Médio - Guarda Civil Municipal - Prefeitura de Niterói RJ - COSEAC - 2014
  • “Morreu constrangido por estar atrapalhando o tráfego de pedestres, categoria à qual sempre se orgulhou de pertencer.” (§ 2)

    Das alterações feitas na oração subordinada adjetiva do período acima, está em DESACORDO com as normas de regência a seguinte:
  • 12 - Questão 53399.   Português - Nível Médio - Guarda Civil Municipal - Prefeitura de Niterói RJ - COSEAC - 2014
  • “Com o caderno sempre à mão, anotava os modismos, os pequenos acontecimentos.” (§ 9)

    Na frase acima, o acento indicativo da crase foi corretamente empregado. Das frases abaixo, aquela em que está INCORRETO o emprego do acento indicativo da crase é:
  • 13 - Questão 53400.   Português - Nível Médio - Guarda Civil Municipal - Prefeitura de Niterói RJ - COSEAC - 2014
  • Nos trechos abaixo, estão informados os termos a que os pronomes em destaque se referem. De acordo com o texto, há erro de informação em:
  • 14 - Questão 53401.   Português - Nível Médio - Guarda Civil Municipal - Prefeitura de Niterói RJ - COSEAC - 2014
  • A respeito da formação da palavra “descompromissadamente” (§ 5), podem ser feitas as análises abaixo, EXCETO:
  • 16 - Questão 53403.   Português - Nível Médio - Guarda Civil Municipal - Prefeitura de Niterói RJ - COSEAC - 2014
  • Se forem comparados os termos em destaque nas expressões “o TRÁFEGO de pedestres” (§ 2) e “o TRÁFICO de pessoas”, pode-se concluir que se trata de um par de vocábulos parônimos, corretamente empregados.

    Dos pares de parônimos usados nas frases abaixo, houve inversão de sentido em:
  • 17 - Questão 53404.   Português - Nível Médio - Guarda Civil Municipal - Prefeitura de Niterói RJ - COSEAC - 2014
  • “O cronista peripatético costumava cruzar na vida real com Rubem Fonseca, os dois flanando pelas calçadas do Leblon." (§ 11) 

    O período composto acima continuará exprimindo o mesmo sentido se lhe for dada a seguinte redação: 
  • 18 - Questão 53405.   Português - Nível Médio - Guarda Civil Municipal - Prefeitura de Niterói RJ - COSEAC - 2014
  • “...as calçadas do Leblon também desapareceram embaixo de tapume do metrô e da multidão trazida PELO shopping center.” (§ 11)

    Dos trechos transcritos abaixo, aquele em que a combinação de preposição mais artigo definido em destaque expressa o mesmo sentido da destacada no trecho acima é:
  • 19 - Questão 53406.   Português - Nível Médio - Guarda Civil Municipal - Prefeitura de Niterói RJ - COSEAC - 2014
  • “O engarrafamento agora é de gente — e foi aí que se deu o passamento do último cronista andarilho” (§ 11).

    No trecho acima, foi usado o travessão para separar a primeira oração da segunda. Sem se alterar o sentido geral do parágrafo, no lugar do travessão poderiam ser usados os sinais de pontuação abaixo relacionados, EXCETO:
  • 20 - Questão 53407.   Português - Nível Médio - Guarda Civil Municipal - Prefeitura de Niterói RJ - COSEAC - 2014
  • “e foi aí que se deu o passamento do último cronista andarilho, vítima da absoluta impossibilidade de se caminhar pelas agressivas calçadas da sua cidade.” (§ 11)

    Dos trechos transcritos abaixo, aquele em que a vírgula justifica-se por norma de pontuação distinta da que justifica a vírgula no trecho transcrito acima é:
  • 21 - Questão 53408.   Português - Nível Médio - Guarda Civil Municipal - Prefeitura de Niterói RJ - COSEAC - 2014
  • “Calçadas não há mais.” (§ 9)

    Das alterações feitas abaixo na redação da frase acima, está em DESACORDO com as normas de concordância verbal a seguinte:
  • 22 - Questão 53409.   Português - Nível Médio - Guarda Civil Municipal - Prefeitura de Niterói RJ - COSEAC - 2014
  • “O cronista que ora se PRANTEIA era um nostálgico das calçadas...” (§ 4)

    Considerando-se o modelo de flexão do verbo em destaque no trecho acima – verbos terminados em –EAR e –IAR, pode-se afirmar que está INCORRETA a flexão do verbo na frase:
  • 23 - Questão 53410.   Português - Nível Médio - Guarda Civil Municipal - Prefeitura de Niterói RJ - COSEAC - 2014
  • “Descanse em paz, pobre coitado.” (§ 1)

    A frase imperativa acima foi reescrita de formas distintas e em distinto tratamento. Entre elas está INCORRETA a seguinte:
  • 24 - Questão 53411.   Português - Nível Médio - Guarda Civil Municipal - Prefeitura de Niterói RJ - COSEAC - 2014
  • “Também podia rir da pregação moralista do profeta Gentileza...” (§ 7)

    O nome “Gentileza”, dado ao profeta, consiste no emprego, como nome próprio, de um substantivo comum, abstrato, derivado do adjetivo “gentil”, pelo acréscimo do sufixo “-eza”, grafado com a letra Z.

    Nas opções seguintes, foram relacionados pares de nomes de formação semelhante à de “gentileza”, ora com sufixo “-eza”, ora com “-ez”. A opção em que um dos nomes NÃO se enquadra nesse modelo de formação, sendo escrito com S, e não com Z, é:
  • 25 - Questão 53412.   Português - Nível Médio - Guarda Civil Municipal - Prefeitura de Niterói RJ - COSEAC - 2014
  • Se os vocábulos “comércio” (§ 2), “também” (§ 7) e “frapê” (§ 8) são graficamente acentuados, da mesma forma, por estarem inseridos nas mesmas regras de acentuação gráfica, têm de ser acentuados, respectivamente, os vocábulos da seguinte opção:
  • 26 - Questão 53413.   Português - Nível Médio - Guarda Civil Municipal - Prefeitura de Niterói RJ - COSEAC - 2014
  • Se o vocábulo “graúdo” é graficamente acentuado, o vocábulo “transeuntes” (§ 2) também deveria ser, pelo fato de, em princípio, incidir na mesma regra de acentuação gráfica. O vocábulo “transeuntes” NÃO se acentua porque:
  • 27 - Questão 53414.   Português - Nível Médio - Guarda Civil Municipal - Prefeitura de Niterói RJ - COSEAC - 2014
  • Nos itens abaixo, foram transcritos trechos do texto, e, ao lado, foi feita a substituição dos complementos por pronomes oblíquos.

    I “por estar atrapalhando o tráfego” (§ 2) / por estar atrapalhando-o.
    II “A perícia encontrou em seu bolso” (§ 3) / a perícia encontrou-lhe no bolso.
    III “As calçadas inspiravam o morto.” (§ 5) / as calçadas inspiravam-lhe.
    IV “e avaliar as fotos das strippers” (§ 7) / e avaliá-las.
    V “não percebeu o fim das calçadas” (§ 8) / não o percebeu.
    VI “anotava os modismos” (§ 9) / anotava-lhes.

    As substituições estão sintaticamente corretas:
  • 29 - Questão 53416.   Português - Nível Médio - Guarda Civil Municipal - Prefeitura de Niterói RJ - COSEAC - 2014
  • Das orações transcritas abaixo, aquela em que o constituinte sujeito está posposto ao verbo é:
  • 30 - Questão 53417.   Português - Nível Médio - Guarda Civil Municipal - Prefeitura de Niterói RJ - COSEAC - 2014
  • “Morreu na semana passada, atropelado pela multidão que vinha na direção oposta, o último cronista andarilho.” (§ 1)

    No período acima, a oração que designa o fato que levou o último cronista andarilho à morte — “atropelado pela multidão que vinha na direção oposta” — foi expressa na voz passiva. Redigida na voz ativa, a referida oração terá a forma: